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Dieta de reis na Inglaterra medieval não se baseava em carne, indica estudo

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Moisaco do Rei Ine, cuja listas de alimentos consumidos em seu reinado foram utilizados como objeto de estudo (Foto: Wikimedia Commons)

Moisaco do Rei Ine, cuja listas de alimentos consumidos em seu reinado foram utilizados como objeto de estudo (Foto: Wikimedia Commons)

Muitas vezes, quando pensamos sobre a alimentação na época medieval, a imagem que vem à cabeça é a de uma mesa farta repleta de carnes fornecidas pelo povo para os monarcas. Mas a realidade talvez não fosse bem assim.

Publicados no último dia 20 de abril no periódico Anglo-Saxon England, dois estudos reúnem evidências que desmistificam o alto consumo de proteína animal por reis anglos-saxões, que viveram a partir do século 5.

Uma das pesquisas foi conduzida pela bioarqueóloga Sam Leggett, estudante de pós-doutorado na Universidade de Cambridge. Ela buscou em 2.023 esqueletos de seres humanos que povoaram a Inglaterra entre os séculos séculos 5 e 11, “assinaturas” químicas das dietas alimentares da época

Legget, então, cruzou esses dados com evidências de status sociais, como bens funerários, posição do esqueleto e orientação da sepultura. E foi aí que ela constatou que não existia correlação alguma entre status social e dietas ricas em proteínas.

“Não encontrei evidências de pessoas comendo algo parecido com tanta proteína animal regularmente. Se fossem, encontraríamos evidências isotópicas de excesso de proteína e sinais de doenças, como gota nos ossos”, explica, em nota, a cientista.

Tais descobertas foram fundamentais para o segundo artigo. Intrigado com os achados de Leggett, o historiador Tom Lambert, também da Universidade de Cambridge, se juntou à pesquisadora para aprofundar o estudo. O objeto de pesquisa da segunda etapa foram listas de comidas durante o reinado de monarquias na Inglaterra medieval.

A primeira lista a ser observada foi uma do reinado de Ine de Wessex (688 d.C – 726 d.C). A partir dos dados contidos nela, os pesquisadores estimaram que a alimentação somava 1,24 milhão de kcal, sendo que mais da metade viria de proteína animal. Com isso, eles calcularam que cada convidado teria comido 500g de carne de carneiro, 500g de carne bovina, 500g de salmão, enguia e aves. A lista também contava com queijos, mel e cerveja

Foto da lista de alimentos compilada durante o reinado do rei Ine de Wessex (Foto: Chapter of Rochester Cathedral)

Foto da lista de alimentos compilada durante o reinado do rei Ine de Wessex (Foto: Chapter of Rochester Cathedral)

Outras dez listas do sul da Inglaterra foram estudadas. Com elas, um padrão: sempre tinham uma quantia modesta de pão, uma considerável de carne e uma razoável de cerveja. Dessa forma, os estudiosos acreditam que esses alimentos eram consumidos apenas em festas, e não diariamente pelos monarcas.

Eles sugerem que a alimentação diária da realeza se baseava em cereais e que os famosos “impostos” de alimentos (foerm), fornecidos pela plebe para a monarquia e elite, não existiam. Lambert concluiu que o termo se referia a momentos festivos e não à forma primitiva de taxação.

Esse apontamento é significativo para a história medieval, pois muda a referência de monarquia ao indicar que reis e elite participavam de festas da plebe, sem o envolvimento do sentimento de obrigação. “Estamos vendo reis viajando para grandes churrascos organizados por camponeses livres, pessoas que possuíam suas próprias fazendas e às vezes escravos para trabalhar nelas”, comenta, em nota, Lambert.

Atualmente, os pesquisadores esperam pela publicação de dados isotópicos dos Baús Mortuários de Winchester, os quais supostamente contêm restos mortais de personalidades importantes da realeza anglo-saxônica. Se comprovados os esqueletos, eles devem fornecer mais informações sobre os hábitos alimentares da elite do período.