entretenimento

Morre João Gilberto, aos 88 anos, no Rio

171views

RIO  –  O músico João Gilberto morreu neste sábado, aos 88 anos, no Rio de Janeiro, onde morava. A causa da morte não foi divulgada. Ele deixa três filhos — João Marcelo, Bebel e Luisa. Nos últimos dez anos, o criador da bossa nova, estilo musical que conquistou o mundo na década de 1960, foi aos poucos perdendo espaço para um personagem complexo. A decadência física, as questões familiares, os problemas financeiros, os contratos mal feitos, enfim, um conjunto de episódios negativos acabou soando mais forte do que o talento de um artista consagrado, talvez, o brasileiro mais conhecido, em sua área, no exterior.

Grande e único. Graças a ele, a bossa nova se consolidou e a música brasileira teve portas abertas para conquistar seu lugar no mundo. A brilhante geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque não teria ido tão longe se não fosse a inspiração de “Chega de saudade”, disco que João lançou em 1958. Naquele ano, ganhou passagem para gravar seu disco depois de acompanhar Elizeth Cardoso, ao violão, em duas canções do disco “Canção do Amor Demais”, obra de Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim.

São muitos os capítulos dessa história. Primeiro, o do adolescente que cantava coisas do rádio no alto-falante da Praça da Matriz de sua cidade, Juazeiro, no sertão da Bahia. Depois, o jovem que foi para Salvador sonhando em se profissionalizar.

Em seguida, a ida para o Rio como crooner do grupo vocal Garotos da Lua. Não deu certo. Demitido por faltar aos compromissos, ele tentou outros caminhos, gravou um disco que não aconteceu, chegou a participar de show de Carlos Machado, passou por maus pedaços no Rio, sem casa, sem trabalho, sem perspectiva. O cantor dessa fase é fã de Orlando Silva, tenta cantar como ele, mas fracassa.

De 1955 a 1957, não se ouviu mais falar em João Gilberto no Rio que o rejeitara. Naqueles dois anos, ele morou em Porto Alegre, Diamantina (MG) e, por menos tempo, na casa dos pais em Juazeiro. Quando volta ao Rio, é outro homem, outro artista, outra batida no violão.

Consta que, durante ao seis meses em que morou com a irmã na cidade mineira, não saiu de casa, pouco falou, dia e noite abraçado ao violão em busca de ritmos e harmonias que acabariam dando forma definitiva a um estilo que logo seria visto por outros músicos como novo, quando não revolucionário. Novo estilo, nova bossa, bossa nova.

Embora muitos fatos relacionados a João Gilberto tenham sido inventados, como se sua vida tivesse de ser tão extraordinária quanto sua arte, a transformação que ocorreu nos seis meses em Diamantina realmente aconteceu, num estranho processo de reinvenção difícil de explicar.

Como terá chegado àquela batida de violão? Por que mudou tão radicalmente o timbre de voz? E onde foi buscar a emissão, a divisão, a precisão, o jeito de cantar, de início aparentemente transgressor, mas, na realidade, preciso, adequado a todo tipo de canção, brasileira ou não? E de que forma voz e violão se integraram como uma coisa só, feitos um para o outro?

O fato é que o João Gilberto que volta ao Rio em 1957 vai, como diria Tom Jobim, influenciar “toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores”. Aos 26 anos, criou assim a bossa nova, conquistou seguidores, ficou famoso. Cultuado no Brasil e admirado no mundo inteiro, gravou discos aqui e nos Estados Unidos, excursionou à Europa, apresentou-se em festivais, foi aplaudido no México e no Canadá, na Alemanha e no Japão.

Com esporádicas passagens naquela época pelo Brasil, João Gilberto fez de Nova York o seu pouso. Em 1979, voltou em definitivo. A partir de então e até 2008, ano de seu último show, cada subida ao palco era um acontecimento. Ou quando acontece, sempre com lotação esgotada, ou quando não, como o do Canecão (em 1979), cancelado por problemas de som que só o preciosismo de seus ouvidos detectou. Era inimigo do ar-condicionado, que, dizia, desafinava seu violão. “Liga, desliga, liga, desliga. Mas eu tô tocando…”, queixou-se durante show que marcou seu retorno ao Brasil.

Cancelou também um show no Municipal, em 2011, pelo qual seu produtor seria condenado a devolver mais de R$ 500 mil ao teatro. Suspendeu ainda, por problemas de saúde, a excursão comemorativa de seus 80 anos.

A maioria de seus últimos shows no Brasil deu-se em seu formato preferido: sozinho no palco, de terno e gravata, banquinho e violão. Sua relação com a plateia tinha de ser mutuamente respeitosa. Em várias ocasiões, zangado ou com um simples “psiu”, obrigou o público a fazer silêncio para ouvi-lo.

Veja imagens da carreira e da vida de João Gilberto:

.

Fonte: Valor Econômico