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Por que a compra do Twitter por Elon Musk não seria um bom negócio

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Elon Musk na palestra de abertura da GPU Technology Conference (Foto: NVIDIA Corporation/Flickr/Creative Commons )

Elon Musk na palestra de abertura da GPU Technology Conference (Foto: NVIDIA Corporation/Flickr/Creative Commons )

O bilionário Elon Musk diz que quer tornar o Twitter privado, comprando 100% de suas ações de capital aberto em um acordo no valor de US$ 43 bilhões [cerca de R$ 201 bilhões]. Em uma carta ao conselho, ele disse que a rede social não pode servir como plataforma para a liberdade de expressão como uma empresa pública. “O Twitter precisa ser transformado em uma empresa privada”, escreveu ele.

Sou um estudioso em liderança e governança corporativa. Um grande problema com as empresas privadas é que elas não têm as garantias das companhias públicas — como propriedade externa e supervisão independente.

Propriedade pública

Alguns anos atrás, explorei detalhadamente a distinção entre empresas públicas e privadas quando a American Bar Association me convidou para escrever sobre o que os jovens advogados corporativos precisam entender sobre como os negócios funcionam. Com base nessa pesquisa, quero apontar para um importante conjunto de distinções entre as companhias públicas e privadas.

Elon Musk quer comprar 100% das ações de capital aberto do Twitter (Foto: Steve Jurvetson/Flickr/Creative Commons )

Elon Musk quer comprar 100% das ações de capital aberto do Twitter (Foto: Steve Jurvetson/Flickr/Creative Commons )

As empresas públicas são aquelas empresas que negociam suas ações em um mercado público, como a Bolsa de Valores de Nova York. Elas são regulamentadas pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos e são afetadas por uma série de importantes leis federais, principalmente a Lei de Responsabilidade por Fraudes Corporativas, popularmente conhecida como Sarbanes-Oxley.

As companhias privadas não negociam suas ações publicamente. A propriedade é firmemente mantida por um número limitado de investidores escolhidos. Como tal, eles escapam ao escrutínio desses supervisores públicos.

Supervisão externa

O CEO de uma empresa pública está sujeito a uma série de restrições e a um grau variável, mas sempre substancial, de supervisão. Há conselhos de diretores, é claro, que revisam todas as principais decisões estratégicas importantes. E há comitês separados compostos inteiramente por conselheiros independentes que não têm nenhum envolvimento contínuo na administração do negócio, e que avaliam o desempenho desse CEO e determinam a remuneração.

Além disso, os acionistas públicos têm direito a votar diretamente na remuneração atribuída aos altos executivos. Categorias inteiras de decisões do CEO, incluindo fusões e aquisições, expansões internacionais e mudanças no estatuto da corporação, estão sujeitas à opinião dos acionistas e diretores.

A composição do conselho de administração também é regulamentada por lei. Metade dos diretores deve ser independente da empresa. E os comitês do conselho encarregados de realizar auditorias, contratar e demitir o CEO e determinar a remuneração dos executivos devem ser 100% independentes. Pessoas de dentro da empresa e familiares próximos podem participar de conselhos públicos, mas não são considerados independentes.

Transparência completa

A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos exige que os CEOs das empresas públicas façam divulgações completas e públicas de seu desempenho financeiro. Relatórios regulares exigem a divulgação de despesas operacionais, parcerias significativas, passivos, estratégias, riscos e planos.

Elon Musk deseja tornar o Twitter uma empresa privada (Foto: Steve Jurvetson/Flickr/Creative Commons )

Elon Musk deseja tornar o Twitter uma empresa privada (Foto: Steve Jurvetson/Flickr/Creative Commons )

Além disso, as empresas públicas devem contratar uma empresa de auditoria independente aprovada pelo Conselho de Supervisão Contábil da Empresa Pública para conduzir e verificar o rigor e a precisão dessas demonstrações financeiras. Qualquer relatório fraudulento pode resultar em acusações criminais contra o CEO e o diretor financeiro.

Todas essas regras visam salvaguardar a integridade das corporações, ajudar a torná-las transparentes para os investidores públicos e proteger contra a corrupção. Elas estão longe de serem perfeitas, mas são úteis. E as empresas privadas não são obrigadas a cumprir nenhuma delas.

Boa gestão

Empresas bem administradas, como a Microsoft e PepsiCo, tendem a superar as mal conduzidas, muitas vezes dramaticamente. Isso se deve em grande parte a todos os fatores mencionados acima que são necessários para as empresas públicas.

Isso não significa que todas as empresas privadas sejam mal governadas — ou que todas as empresas públicas sejam bem governadas. Mas os ingredientes-chave da boa gestão, especialmente a responsabilidade, são incorporados às empresas públicas de uma forma que não são para empresas privadas.

Se o Twitter se tornaria ou não uma plataforma melhor para a liberdade de expressão como uma empresa privada é discutível. Mas a pesquisa de gestão sugere que isso faria com que ele tivesse um desempenho pior como negócio.

* Bert Spector é professor associado de Negócios Internacionais e Estratégia na Escola de Negócios D’Amore-McKim da Northeastern University, nos Estados Unidos. O texto foi publicado originalmente em inglês no The Conversation.